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          A MASSAI BRANCA: HÁ ESPAÇO PARA O AMOR NO CONFRONTO DE DUAS CULTURAS?

O filme a “A Massai Branca” foi baseado no livro autobiográfico de Corinne Hofmann. A escritora nasceu em Frauenfeld, em 1960, no cantão Thurgau, filha de mãe francesa e de pai alemão. Antes de partir para o Quénia, tinha uma loja de roupa na Suíça. Quando voltou, escreveu The White Masai (traduzido para inglês em 2005 O livro vendeu mais de 4 milhões de exemplares na Alemanha, Aústria e Suíça e foi traduzido para 23 línguas. 
O filme “A Massai Branca” aborda diretamente diversas temáticas envolvendo cultura. Seu enredo retrata aspectos relacionados ao etnocentrismo, questões de gênero, valores morais, relativismo cultural, choque cultural e o confronto de culturas. Através de um drama/romance somos provocados a refletirmos sobre as diversas interfaces desses assuntos.
O filme narra a história de uma suíça (Carola), uma mulher bela, culta e bem sucedida, que viajou ao Quênia com o noivo e não pensou duas vezes em abandona-lo para se unir e depois casar com um guerreiro Massai do grupo social dos Samburus (Lemalian). Carola com ajuda de uma amiga, Elizabeth, também casada com um queniano, passa a procurar o guerreiro durante mais de dez dias, até que o mesmo vai buscá-la e ela de fato passa a viver no Quênia e abraça o país como o seu verdadeiro lar, indo para Barsaloi, povoado do grupo étnico do guerreiro.  
È o encontro e o coque cultural do mundo “civilizado” com a África selvagem. A Suíça é um dos países mais civilizados e desenvolvidos economicamente do mundo. Localizada na porção central da Europa possui um PIB de 622,855 bilhões de dólares  e uma população de cerca de 7,6 milhões de habitantes, é um país de elevado nível de vida. Possui uma industrialização forte e em crescente. Os setores de saúde e educação são um dos mais desenvolvidos em toda a Europa.
             Opostamente ao desenvolvimento econômico da Suica está o Quênia. Os quenianos, assim como a maioria dos habitantes da África Subsaariana, enfrentam vários problemas socioeconômicos. Conforme dados de 2010, divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU), o país apresenta Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,470, ocupando 128° lugar no ranking mundial, que é composto por 169 nações. Mais da metade da população vive abaixo da linha de pobreza; a subnutrição atinge 32% dos quenianos e a taxa de mortalidade infantil é de 62 para cada mil nascidos vivos.
    Os massais são um grupo étnico da África Oriental bastante conhecido. Essa etnia é caracterizada por tentar preservar seus costumes e tradições. Além de buscar manter o paz e harmonia com os diversos grupos étnicos muitas vezes rivais que habitam as regiões próximas, encontram muitas dificuldades de sobrevivência e de uma forma ou de outra estão engajando economicamente e politicamente as forças globalizantes que se faz presente cada vez mais no continente africano.
        A personagem principal, Carola, está disposta a enfrentar todo tipo de dificuldade para ficar com o seu grande amor. Ela aceita entusiasmada a ir com ele para sua aldeia. Chegando lá percebe que realmente está indo morar na selva, onde não tem eletricidade, e nem água corrente, mas apenas vegetação, cabanas, vacas e cabras.
Mas o que realmente o filme pretende aborda com clareza é os inumeros costumes diferentes entre os dois mundos, o de Carola e o de Lemalian. Um massai, por exemplo, não deve comer na frente de uma mulher, não deve comer o que ela cozinhou, ou mesmo olhou. Ele não deve tocar em uma mulher na frente de outros guerreiros e ela também não deve tocá-lo, em sinal de respeito.
Segundo a professora Erica Patrícia Barbosa de Oliveira e o professor Erinaldo Ferreira do Carmo entre os Samburus, grupo social fechado e de pouca referência externa, os interesses das mulheres não são considerados e estas são menos importantes que as cabras e as vacas, tendo em vista tratar-se de uma sociedade de pastores onde esses animais são essenciais à sobrevivência do grupo. Com uma formação machista, os Samburus praticam a mutilação genitália das meninas ao entrarem na adolescência como uma forma de controlar a vida sexual feminina, não utilizam técnicas ou ferramentas de ampliação da produtividade e cultuam ritos que afastam homens e mulheres de uma convivência mais afetiva. Neste cenário perdido no tempo e no espaço, longe de tudo e de todos, a narradora se percebe ao longo de todo o enredo como um ser estranho. Apenas a malária a trata como igual.
Em várias cenas do filme percebemos o costume de Lemalian de sair andando e deixá-la segui-lo sem nenhum contato visual. Logo no inicio do seu reencontro, ao se verem, ele sai andando e ela o segue, sem o menor contato. Entram em um casebre onde Lemalian foi para procura-lá, e quando começam a ter algum contato físico, ele logo à vira e faz sexo com ela, sem o menor cuidado ou contato mais afetivo. Parece ser sexo anal, cujo objetivo para o guerreiro é a sua mera satisfação. Apesar de Carola ter percebido que ele não tinha feito por mal e sim por ser a forma que estava acostumado foi muito estranho e agressivo, chegando a deixá-la triste pelo ocorrido.
O estranhamento de Carola com o lugar, as pessoas e os costumes é muito grande, mas parece que o amor é bem maior. Em uma das suas primeiras experiências de dormirem juntos, ela se deita no peito de Lemalian, mas ele a afasta e dá boa noite. O que para muitos de nós simboliza um ato de frieza, mas naquele contexto cultural, nada mais que algo natural que por não levantaria nenhuma estranhamento de alguém da mesma cultura.
A questão sobre as relações sexuais daqueles povos é bastante provocativa para nós ocidentais. Em uma cena do filme fica explicito que o sexo e a sexualidade também são aprendidos, de acordo com as preferências de cada um. E que são diferentes também de cultura pra cultura. Quando eles vão fazer sexo novamente, Lemalian tenta logo virá-la para fazer sexo anal. Carola pede que ele faça de outra maneira e começa a ensiná-lo a ser mais carinhoso. Nas próximas vezes Lemalian mostra mais afeto e que realmente aprendeu tudo que Carola havia ensinado.
Muitas outras cenas impressionam bastante, como a da circuncisão das jovens e a da mulher grávida, no meio da estrada, prestes a dar a luz e que ninguém a ajuda. Carola não se conforma com aqueles atos incompreensíveis e desumanos praticados pelo povo samburu. No caso da circuncisão, apesar de uma breve exaltação e desejo de por fim aquela crueldade que toma conta de si ao presenciar tais fato, logo percebe que não há o que fazer diante de práticas tão enraizadas na cultura deles. No caso da mulher grávida, Carola tenta ajudar a moça sozinha, pois ninguém se propõe a ajudar dizendo que ela está enfeitiçada. A mulher e a criança morre a caminho da ajuda. Ao ir indignada falar com seu marido, este lhe explica que isto é uma tradição, um costume e que tem que ser assim. Esta cena é bastante forte, e nos faz pensar mais uma vez na questão do que é certo e errado, o que é certo e errado pra quem, quando, em que situação, em que época, em que cultura.
Mas depois de alguns anos, o relacionamento deles muda bastante. Lemalian, torna-se bastante ciumento. E mais uma vez, percebemos a força da tradição e para Carola o peso da mesma. As mulheres naquela região não devem olhar nos olhos dos homens. Carola não compreende a proibição e não consegue perceber outra maneira de conversar com as pessoas sem encará-las. Dessa forma, Lemalian começa a achar então que ela tem amantes. As brigas e discussões tornam-se constantes e o guerreiro se mostra bastante agressivo a ponto de querer matá-la em uma das cenas, ao insinuar que ela era uma vadia e um abordo que Carola encontrou no chão fosso fruto do seu ventre traidor.
Depois de alguns anos, Carola engravida, e quase morre ao ter seu bebe. Em função de todas as diferenças de costumes, tradições, cultura, e das brigas que acabam tendo, ela não aguenta mais aquela situações e convence Lemalian a ir com a filha para a Suíça para mostra-la a avó e que logo retornar. Mas a verdade é que Carola não pretendia ver mais aquele homem que tanto sofrimento o casou. E assim acaba um amor que parecia tudo suportar, mas que na verdade há um limite de obstáculos para que o amor reine. O obstáculo das diferenças culturais pode ser muito forte, como no caso do casal. Penso que não haveria amor que resistisse a tudo aquilo vivenciado pelos dois. A cultura os separou e venceu o amor.





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